Ultimamente, tenho pensado bastante sobre a forma como as pessoas estão encarando verdades e mentiras.
Parece cada vez mais difícil argumentar, mesmo
quando temos informações confiáveis, dados sólidos e fatos verificáveis. Muitas
vezes, as pessoas simplesmente não acreditam. E o mais curioso: nem sempre
apresentam argumentos para contestar. Apenas não acreditam.
Talvez isso seja próprio do ser humano.
Gostamos de nos apropriar das coisas. E, por que não, também da verdade?
Assim, surgem a minha verdade, a sua verdade,
a verdade do outro. Como se a verdade pudesse ser moldada conforme a
conveniência, a experiência, a emoção ou o grupo ao qual pertencemos.
A verdade se tornou efêmera. O que é verdade
hoje pode não ser amanhã. O que é verdade para mim pode não ser para o outro.
E, no meio disso tudo, vamos escolhendo em que acreditar, muitas vezes mais por
afinidade do que por reflexão.
Fico imaginando duas pessoas que se desentendem. Cada uma segue para um lado e conta a sua versão do ocorrido. Rapidamente, surgem dois grupos de apoio, cada um defendendo incondicionalmente uma das versões.
Daí me vem à lembrança um colega de trabalho,
no início da minha carreira. Sempre que começávamos um debate, sobre qualquer
assunto, cada um dava sua opinião. Quando perguntávamos ao Vieira o que ele
achava, ele se levantava, olhava para todos com aquele ar de autoridade e
dizia:
“Se é como diz você, tem razão você. Mas, se é
como diz ele, tem razão ele.”
Parece piada. Mas quanta verdade há nisso.
Mesmo nos ambientes onde se busca formalmente
a verdade, ela precisa ser julgada. Em um Tribunal do Júri, por exemplo, defesa
e acusação apresentam provas, testemunhos e documentos. Cada lado sustenta a
sua narrativa, como verdade. Ao final, os jurados dão o veredito.
A própria palavra é forte, explicada pela origem
- vere (verdadeiro)
com dictum (o particípio passado de dicere): aquilo que é dito como verdadeiro.
No Brasil, não usamos aquela conhecida
pergunta: “Jura dizer a verdade, nada mais que a verdade?” Ainda assim, antes
do depoimento, o magistrado deixa claro o dever de dizer somente a verdade, sob
pena de falso testemunho.
Então, todos devem estar dizendo a verdade,
certo? Será?
Esse assunto é antigo. E já envolveu uma das perguntas mais profundas da história.
Disse Jesus:
“Nasci e vim ao mundo para dar testemunho da
verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz.”
Pilatos, então, perguntou:
“Que é a verdade?”
Jesus não respondeu.
Talvez porque algumas perguntas não existam
para encerrar o assunto. Existam para nos obrigar a pensar.
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